Passivo-Agressivo: a violência que se esconde no silêncio

chatgpt image feb 22, 2026, 02 22 32 pm

Quando o silêncio machuca mais do que o grito.

Por Marina Chaiya – Psicanalista Clínica

Lidar com alguém que tem comportamento passivo-agressivo é no mínimo desgastante, e grande parte do desgaste, se deve justamente pela existência da parte “passiva”. Porque diferente da agressão física, que é visível e palpável (ainda assim existente em muitos relacionamentos), a agressividade, quando vestida de passividade, pode ser encarada como inofensiva, e pode levar anos, até que a passividade seja vista na claridade do dia, como o que realmente é: fria e cortante.

Vamos por partes, e você vai ver se reconhece algumas dessas atitudes. Sabe a pessoa que expressa o que pensa com risos e comentários sarcásticos a todo tempo? A pessoa que quando está chateada com você ou com uma situação, não diz nada, mas dá indiretas ou se cala e se fecha? Ou aquele alguém quem se irrita ou se resente quando não tem suas vontades ou necessidades atendidas (geralmente, sem ter comunicado seus desejos e expectativas)? Ou até a pessoa que ignora ou é extremamente reativa como uma forma de fazer você se sentir culpada e adivinhar que ela não está satisfeita com algo?

Pois é! Não é tão incomum assim, né? Agora, você percebe como também é relativamente fácil, você enquadrar esses comportamentos como algo corriqueiro? Se escuta muito: “é que ele tem dificuldade de expressar o que pensa”, “ela não tem linguagem para falar o que está sentindo”, ou até pior “ele se distrai e acaba se fechando no mundo dele”… A passividade acaba se tornando um sinal de fragilidade emocional. Mas ela é um canal para algo mais fundo.

Em clínica,  fica claro que quando uma criança cresce com cuidadores passivo-agressivos, ela vai se deparar com o desafio de se comunicar abertamente na vida adulta, e ter dificuldade para experimentar algo fundamental para a saúde: a fluidez emocional (capacidade de vivenciar e passar por diversas emoções ao longo do dia). Ao invés disso, a pessoa fica horas com a mesma emoção, como se andasse em círculos revivendo a mesma sequência de pensamentos e sentimentos; e nesse processo se fechando para os outros.

Naturalmente, se espera, tomara, com a glória do universo, que essa pessoa encontre ao longo da vida, espaços e pessoas que a façam se deparar e confrontar sua capacidade de autoexpressão e regulação, fazendo com que ela busque por ajuda e transformação (seja a partir livros, artigos, terapia, grupos terapêuticos e/ou outras fontes de auto conhecimento).

Agora, quando alguém não passa por esse processo de remodelação, ela passará anos se identificando com os traços de comportamento passivo-agressivo. Ela dificilmente dirá que é passiva-agressiva, certamente não. Mas ela pode dizer que é curta e grossa, que várias coisas não importam, e que ela não sente nada sobre isso ou aquilo.

E o que você pensa quando alguém te fala “faz do jeito que você achar melhor, para mim não faz diferença”? Na superfície, até parece que essa pessoa tomou um chá calmante, um chill pill, gotinhas de maracujá, mas adivinha? Por dentro essa pessoa é… humana! E inevitavelmente ela se afeta sim, tem desejos e preferências sim, e na maioria das vezes, a escolha que você fizer, faz diferença pra ela sim, só que ela está tão desconectada de si mesma, a ponto de acreditar que não.

Ela não se percebe e se anula, porém, ela inevitavelmente sente, e ressente (a si e aos outros), o que dá mais força ao seu comportamento passivo-agressivo. O que lhe falta é desenvolvimento e maturidade emocional, e isso faz com que essa pessoa se amargure e ela comece a soar para os outros como desdenhosa (sig. dicionário: indica uma atitude de desprezo, indiferença ou rejeição, como se algo não merecesse atenção ou importância).

Vale ressaltar que imaturidade emocional não tem nada a ver com idade, tem muitas pessoas no auge dos 60 anos, que demonstram pouca (ou nenhuma) maturidade emocional.

O padrão de comunicação passivo-agressivo, não é passivo e agressivo, nem passivo ou agressivo, é passivo-agressivo, porque a agressividade vive dentro da passividade. É justamente a forma de comunicar os seus pensamentos e sentimentos de forma direta, que machuca e violenta o outro. Veja bem, o passivo-agressivo, vai ignorar, ou ser grosseiro, quando ele se sente culpado, vai expor frustração, quando na verdade se sente enciumado e inseguro, vai demonstrar raiva, ao invés de comunicar o motivo da raiva (que no fundo se sabe bem que a raiva nunca caminha só, como o brilhante Stephen Porges diz: a raiva sempre acompanha a uma dor emocional mais profunda). E é assim, que violência acontece de forma quase silenciosa, na forma abrupta de mexer em objetos pela casa, com dureza, com raiva armazenada no corpo, com um olhar de desaprovação e impaciência, na forma de escolher e projetar as palavras, sempre deixando o outro em um espaço de culpa ou de se questionar.

A inércia e falta de ação também é um dos comportamentos comuns que pode é observado, e que a princípio pode ser entendido como apatia, de uma pessoa reservada, mas na verdade, esconde um dejeto por controlar e não deixa de ser, uma forma de punição silenciosa.

A característica mais marcante do comportamento passivo-agressivo é demonstrar sem diretamente > comunicar.

Conviver com uma pessoa passiva-agressiva pode ser desestabilizador. Quem está do lado de um passivo-agressivo, se vê muitas vezes em estado de alerta, sentindo culpa e hesitação.

O padrão passivo-agressivo está enraízado na desconexão consigo, no medo da rejeição e confronto e na dificuldade/vergonha em aceitar o seu eu autêntico (que é um eu cheio de vontades, necessidades e emoções).

Você reconhece esse padrão, ou convive com alguém que você suspeita te tratar de forma passiva-agressiva?

Ou de forma muito corajosa, você se identifica com essa profunda dificuldade em acessar e expressar sua raiva que dá origem ao comportamento passivo-agressivo?

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