A projeção da bagunça interna como tentativa desesperada de manter algum controle.
Por Marina Chaiya – Psicanalista Clínica
Qual o reflexo de alguém que não consegue identificar o que está sentindo?
Machucar o outro!
Porque não ser capaz de se expressar, frusta demais.
A pessoa se sente perdida, encurralada dentro dela, ela pode não saber a razão do próprio incômodo, mas ela sabe que tem algo incomodando.
Já teve algo pinicando sua pele? Você pode até não saber o que é, mas você sabe que tem algo lá incomodando.
Se a pessoa está desorientada dentro dela mesma, pode ter certeza que ela vai tentar ganhar algum senso de controle, externamente.
E pra controlar, só existe uma maneira: através da dor.
Todo controle exige infligir dor em algum nível.
Porque é a única maneira de tornar visível o incômodo que ela sente por dentro. Então, ela vai espelhar no outro, jogar no outro, o próprio sofrimento; é na verdade, uma forma de sobrevivência.
Agora, é justo? Absolutamente, não.
Quer entender como esse processo acontece tim tim por tim tim? Leia esse diálogo entre um casal de quarenta e poucos anos:
– Eu tô preocupada se vamos conseguir pagar a viagem da Páscoa. Talvez devêssemos fazer algo aqui na cidade mesmo. O que você acha? Ela perguntou.
– Vai dar tudo certo. Ele respondeu, somente.
– Tá bom então. E como está sendo pra você no novo trabalho? (Faz pouco menos de 3 semanas que ele começou).
– Tudo bem, tá indo bem. Ele respondeu, novamente sem ir a fundo.
Vamos aos fatos: a realidade é que ele também estava se sentindo receoso com os valores da viagem.
E se ele fosse se abrir de verdade, ele diria que ele está se sentindo inseguro desde que começou no novo trabalho, ele sente que tem que provar o seu valor para os chefes e ainda está conhecendo os colegas, então está longe de se sentir confortável no escritório.
Talvez você conheça alguém como ele, talvez você conviva com meias palavras.
Talvez você possa imaginar várias hipóteses que levaram esse homem a dar essas respostas curtas.
Talvez ele estivesse tendo um dia ruim, talvez ele se identificando demais com o papel de ser um homem forte, talvez ele queira passar segurança, talvez ele nunca tenha tido o espaço para ser escutado na infância…
É, talvez… mas ele ainda não entendeu o básico das relações humanas.
Transparência e comunicação aberta levam a união e crescimento.
Enquanto a falta de abertura e expressão cria distanciamento e ressentimento.
É o bê-a-bá da inteligência emocional.
Então, porque eles será que eles não comunicam direito porra?! (Você pode estar gritando indignada aí do seu sofá.)
Porque para se comunicar abertamente, ele precisaria estar acessando dentro dele a verdade, e ele não está.
A inverdade falada é a imagem da bagunça interior. E viver na bagunça é difícil, não é?
Mas a vida exige verdade, existe algo muito maior que está a todo momento exercendo uma força gravitacional, que nos impulsiona todos para a evolução, para a aprendizagem, para a mudança, para o melhor. Eu chamo isso de pulsão de vida.
E a pulsão de vida faz com que o indivíduo em negação, projete para fora sua bagunça, e é só através desse movimento, que ele pode enxergar diante de si a própria desorganização.
Projetar a bagunça interna = machucar através de palavras ou ações.
Duro, eu sei. E antes que você me diga: “por isso que eu estou sozinha”, “por isso que as mulheres tem que cair fora”. Eu quero te explicar algo muito rapidinho:
Bagunça interna, gera sem sombra de dúvidas, dor interna.
A dor é sentida energeticamente, emocionalmente e fisicamente.
Dependendo do grau de desconexão (juro pra você menina), às vezes o fulano só vai sentir quando a dor física já virou uma doença diagnosticável. Ele não percebeu, nem os primeiros sinais de dor física (tem muita gente assim).
E isso explica porque ao causar dor no outro, é a única forma dele poder se ver. Poder ver a sua própria dor materializada do lado de fora.
“Mas Marina, ninguém merece passar por isso para ajudar esse homem a se ver e enxergar suas dores”. Concordo. 100%.
Pra isso existe, terapia.
Sinceramente, eu não sairia com um homem que não faz. E também não recomendaria. Porque a gente vem de uma construção social e emocional masculina looooonga e capenga, que infelizmente (ou felizmente, já que existe) pede por ajuda profissional.



